
A discussão sobre IA na escola costuma oscilar entre dois extremos: a ideia de que todos já usam e a impressão de que quase ninguém sabe por onde começar. A pesquisa TALIS 2024, publicada pela OCDE em 2025, ajuda a substituir percepções por dados.
Em média, cerca de um em cada três professores dos anos finais do ensino fundamental declarou ter usado inteligência artificial no trabalho durante o ano anterior. A adoção varia muito entre países, o que mostra que acesso, formação e políticas institucionais fazem diferença.
Onde a IA já entrou na rotina docente
Entre os professores que utilizam IA, 68% disseram recorrer à tecnologia para aprender ou resumir um tema e 64% para gerar planos de aula. São usos fáceis de iniciar: o professor descreve o assunto e recebe uma primeira estrutura para revisar.
O dado confirma que a porta de entrada da IA tem sido a produção de conteúdo. Ela ajuda a criar perguntas, encontrar exemplos, adaptar uma explicação ou começar um planejamento que antes dependia de uma página em branco.
O espaço ainda pouco explorado
Apenas 25% dos professores usuários de IA afirmaram utilizar a tecnologia para revisar dados de participação ou desempenho dos estudantes. Outros 26% disseram empregá-la para avaliar ou atribuir notas.
Essa diferença revela uma oportunidade importante. Gerar uma atividade é útil, mas acompanhar como cada aluno responde a ela exige continuidade: observar dúvidas, registrar estratégias, reconhecer avanços e identificar padrões ao longo do tempo.
Por que analisar sinais é mais difícil que gerar texto
Um plano de aula pode ser produzido a partir de um comando. O acompanhamento individual depende de informações confiáveis, contexto e critérios pedagógicos. A ferramenta precisa saber de onde veio cada observação, evitar misturar alunos e apresentar uma síntese que o professor possa conferir.
Também existe uma diferença de responsabilidade. Uma sugestão de atividade pode ser descartada rapidamente. Uma conclusão sobre desenvolvimento, comportamento ou necessidade de apoio pode influenciar decisões e conversas com a família. Por isso, precisa de revisão humana e cuidado com os dados.
Os professores enxergam potencial — e riscos
Quatro em cada dez docentes concordaram que a IA ajuda a apoiar estudantes individualmente. Ao mesmo tempo, aproximadamente sete em cada dez acreditam que ela pode facilitar a apresentação de trabalho alheio como próprio.
Preocupações com vieses, respostas incorretas e privacidade também aparecem na pesquisa. Isso não aponta para proibição nem liberação irrestrita. Aponta para governança: critérios claros, ferramentas adequadas e formação para uso responsável.
Do plano de aula ao ciclo pedagógico
A adoção costuma começar antes da aula, mas o maior valor pode estar no ciclo completo:
- Planejar: preparar atividades alinhadas ao objetivo.
- Observar: perceber participação, dúvidas e estratégias durante a aula.
- Registrar: guardar sinais relevantes sem burocratizar a rotina.
- Interpretar: identificar continuidade e padrões com apoio da tecnologia.
- Agir e comunicar: ajustar o ensino e conversar com a família com contexto.
O que a coordenação pode fazer agora
- mapear os usos de IA que já acontecem, inclusive de forma informal;
- definir quais informações podem ou não ser inseridas em ferramentas gerais;
- priorizar problemas pedagógicos concretos, em vez de adotar tecnologia por novidade;
- oferecer tempo e formação para que professores testem com segurança;
- acompanhar se o uso melhora processos e decisões, não apenas velocidade.
A próxima fase da IA docente não é gerar mais materiais. É ajudar a transformar o que acontece em sala em acompanhamento útil, sem aumentar a burocracia.
Fonte
- OCDE — Teaching for Today’s World: Results from TALIS 2024. Os percentuais são médias internacionais e não representam isoladamente o Brasil.
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